Resenha “Só por hoje e para sempre – Diário do Recomeço”, de Renato Russo.

Só por hoje e para sempre
2015
160

“Perdi vinte em vinte e nove amizades/ por conta de uma pedra em minhas mãos”, rezam os versos iniciais do álbum O descobrimento do Brasil, lançado pela Legião Urbana em novembro de 1993. Menos de seis meses antes, em abril do mesmo ano, Renato Russo dava entrada na clínica de reabilitação Vila Serena, no Rio de Janeiro, não só para se desvencilhar do álcool e das drogas, como também para mergulhar numa reflexão profunda sobre sua vida.
Os vinte e nove dias que o músico passou ali internado o marcariam profundamente, tanto em sua trajetória pessoal quanto em sua produção artística, conforme revelam as várias letras subsequentes que, a exemplo de “Vinte e nove”, se referem a essa experiência radical de reclusão.
“Passei vinte e nove meses num navio/ e vinte e nove dias na prisão”, segue a canção, “e aos vinte e nove, com o retorno de Saturno,/ decidi começar a viver.” Perfeccionista e exigente em todas as etapas de seu processo criativo, da composição à execução diante do público, o homem que estava à frente da Legião Urbana - uma das bandas de maior sucesso na história da música brasileira - encarou com a mesma obstinação o Programa dos Doze Passos oferecido pela clínica, seguindo à risca os exercícios terapêuticos de escrita propostos.
É esse material inédito que vem à tona depois de mais de vinte anos em Só por hoje e para sempre, atendendo ao desejo do autor de ter sua obra publicada postumamente. Entremeando as memórias de Renato com passagens de autoanálise e um olhar esperançoso para o futuro, esse relato oferece a seus fãs, além de valioso documento histórico, um contato íntimo com o artista e um exemplo decisivo de superação.
“E vinte e nove anjos me saudaram/ E tive vinte e nove amigos outra vez.”Passados mais de vinte anos, vem à tona relato inédito dos dias que o líder da Legião Urbana passou numa clínica de reabilitação para combater a dependência química e reencontrar o equilíbrio.

“Perdi vinte em vinte e nove amizades
Por conta de uma pedra em minhas mãos
Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
Estou aprendendo a viver sem você
(Já que você não me quer mais)

Passei vinte e nove meses num navio
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno
Decidi começar a viver.

Quando você deixou de me amar
Aprendi a perdoar
E a pedir perdão.
(E vinte e nove anjos me saudaram
E tive vinte e nove amigos outra vez)”

 

A capa é uma das mais bonitas que já vi. Tem uma textura emborrachada, gostosa de passar a mão. Dá pra ver as marcas dos meus dedos! (Risos)

 

Para quem gosta de ouvir música, é comum relacionar algumas canções a momentos da vida ou a alguém, quem nunca? Mas as letras de músicas ganham um novo significado quando descobrimos a história por atrás de sua composição, o que nos faz a vê-la (ouvir, vocês entenderam!) com outros olhos (Out! Ouvidos!). Até então, para mim, Vinte e nove era apenas mais uma excelente música da Legião Urbana, uma, senão a maior, banda de rock do Brasil. Mas após ler “Só por hoje e para sempre- O diário do Recomeço”, passei a entender o sentido real da música e acha-la mais incrível ainda. E emocionante, vocês entenderam o porquê:

 

 

Enredo:

Antes de começar o enredo, deixe eu explicar o contexto, já que desta vez, o livro não é ficção: no fim dos anos 80 e início da década de 90, a Legião Urbana estava no seu auge da fama.  Tinha milhões de cópias de discos vendidos, entre eles “As Quatro Estações”, considerado pelos fãs e pelo próprio líder da banda, o saudoso Renato Russo, o melhor álbum do grupo. Sucessos como “Será”, “Geração Coca-Cola” e “Tempo Perdido” eram tocados e repetidos diariamente nas paradas. As turnês das bandas arrastavam legiões (desculpem o trocadilho). Porém, para Renato, ele havia chegado ao fundo do posso. Depressivo, vida amorosa arruinada e seus acessos de raiva ocasionados pela sua dependência química sendo noticiados e duramente criticados pela mídia, o líder da Legião Urbana estava muito próximo da morte. O pior que não era a primeira que ele estava tão próximo da autodestruição. Mas agora, ele precisa urgentemente de tratamento. Em abril de 1993, Renato Russo se internou na clínica de reabilitação Vila Serena, localizada atualmente no bairro do Maracanã, Rio de Janeiro. Como parte do tratamento, Renato tinha que escrever. Escrever sobre suas crises, entorpecido pelo uso de drogas e da bebida alcoólica, sobre seus arrependimentos, seus momentos de “auto piedade” e “assertividade”. O resultado foi um diário emocionante e íntimo, por trás da cortina de um dos maiores mitos da música brasileira.

 

Um dos trechos destacados dos relatos de Renato. Dá para perceber o quanto ele se esforça para ter uma postura mais otimista.

 

 

Narrativa:

Como se trata de um relato real, a narrativa é toda em primeira pessoa, da ótica do próprio Renato Russo. Ora datado como acontecimentos diários ora escrito como exercícios com enunciados, a rotina do vocalista da Legião Urbana na clínica de reabilitação é narrada com sensibilidade e muita humanidade, mostrando até então um lado desconhecido de Renato para os fãs. Em seu diário, Renato relata seus arrependimentos, seus acessos de raiva, suas confissões, desventuras amorosas e até os bastidores dos shows e das gravações da sua banda e até do Aborto Elétrico, seu primeiro conjunto musical. Narra também seu longo e penoso processo de cura, tanto física, quanto mental e principalmente, espiritual.

 

É o que também queremos Renato!

 

Destaque:

O livro já começa com um depoimento emocionante de Giuliano Manfredini, o filho de Renato “Russo” Manfredini Júnior. Nesse prefácio, Giuliano comenta sobre a breve, mas saudosa e intensa convivência com seu pai, lembrando de vê-lo debruçado sobre cadernos e mais cadernos, escrevendo sem parar. Isso já nos dá pistas que “Só por hoje e para sempre” não será apenas o único livro de memórias de Renato Russo publicado. O livro contém também fac-símile das páginas reais em que Renato escrevia em seus dias na Vila Serena e destaques para frases marcantes do cantor, reproduzidas na sua caligrafia e também de desenhos criados pelo cantor.

 

A folha de rosto nos passa a sensação que estamos lendo um caderno.

 

 

Renato também desenhava para passar o tempo na clínica.

 

 

O prefácio de Giuliano Manfredini, filho de Renato, é uma das partes mais emocionantes do livro.

 

 

 

Minha Opinião:

Eu sou fã de Renato Russo e da Legião Urbana, cresci ouvindo suas músicas nos CD´s dos meus país. Foi um espanto para mim quando vi esse livro nas livrarias e me apressei em comprá-lo. Até o momento, eu considerava Renato Russo como um dos maiores gênios da música do planeta, tinha uma visão quase etérea dele, como a maioria dos fãs deve ter também. Mas após ler “Só por hoje e para sempre”, vi o quão humano e não muito diferente de todos os mortais aquele cara era. Renato era tímido, tinha suas dúvidas, seus medos e suas crises e a dependência pelas drogas agravou isso tudo e quase destruiu a sua vida por completo. Seus testemunhos são tão intensos e verdadeiros que é como se estivéssemos dentro da clínica de reabilitação, sentados num circulo e ouvindo Renato falar suas experiências. É tão emotivo que dá vontade de dar um abraço nesse cara…

 

 

O livro nos dá ideia de como era realmente ser um Rock star autentico, com a vida regada com muito sexo, drogas e rock´n´roll, Renato Russo foi um tremendo Punk! O homem por trás do mito, como diz Giuliano em seu prefácio. Um homem que era visionário. Como músicas que foram feitas na década de 80-90 podem ser ainda tão atuais mesmo em 2016, descrevendo perfeitamente a nossa situação política e emocional? Renato Russo escrevia letras para a posteridade, gênio que era. Claro, admiro sua genialidade musical, o que é de fato incontestável, mas o livro também nos passa uma importante mensagem: nunca, jamais nos entregar ao consumo desenfreado de drogas e bebidas alcoólicas. O vocalista da Legião Urbana nos deixou por escrito seu próprio testemunho de como uma vida pode ser destruída completamente pelos entorpecentes. É lamentável ver que gênios como ele sucumbiram a esse mal.

 

Sabe quando você encontra aquela frase marcante num livro e vai levar pra vida toda? Pois é…

 

Apesar de ser curto e fácil de ler com suas 168 páginas, “Só por hoje e para sempre- Diário do Recomeço” é uma leitura intensa, emocionante, sensível e muito humana de um dos maiores ídolos da música brasileira. É história real de angustias e superações, uma caminhada penosa de homem que busca sair da escuridão para a luz. O livro é fino e possui uma capa muito bonita, com uma textura emborrachada. Não é muito caro, dei sorte de compra-lo em uma promoção, além de ser relativamente pequeno, fácil de carregar ou colocar na bolsa ou na mochila. “Só por hoje e para sempre” é obrigatório para todos os fãs da Legião Urbana, o primeiro de uma série de diários e cadernos escritos por Renato ao longo de seus breves 36 anos, vou esperar com ansiedade pelos próximos livros publicados pela Cia. das Letras. Vamos sempre deixar as luzes acessas, Renato!

 

 

Ficha técnica:

Título: Só por Hoje e para Sempre
Subtítulo: Diário do Recomeço
Autor: Renato Russo
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1
Ano: 2015
Páginas: 168
ISBN: 978-85-3592-609-5
Preço sugerido: R$ 34, 90.

 

Tainá de Oliveira

Sou Tainá de Oliveira, carioca da gema e tipicamente ariana! Rata de livraria, meu vício em livros começou já no berço. Jornalista, sonho em escrever livros tão bons quanto os que leio e que possam encantar crianças e adormecer adultos!

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