Resenha “O Leitor do Trem das 6h27” de Jean-Paul Didierlaurent.

O Leitor do Trem das 6h27 Book Cover O Leitor do Trem das 6h27
Jean-Paul Didierlaurent
Ficção
Intrínseca
17 x 12 cm
176

Operário discreto de uma usina que destrói encalhe de livros, Guylain Vignolles é um solteiro na casa dos trinta anos que leva uma vida monótona e solitária. Todos os dias, esse amante das palavras salva algumas páginas dos dentes de metal da ameaçadora máquina que opera.

A cada trajeto até o trabalho, ele lê no trem das 6h27 os trechos que escaparam do triturador na véspera. Um dia, Guylain encontra textos de um misterioso desconhecido que vão fazê-lo buscar cores diferentes para seu mundo e escrever uma nova história para sua vida. Com delicadeza e comicidade, Didierlaurent revela um universo singular, pleno de amor e poesia, em que os personagens mais banais são seres extraordinários e a literatura remedia a monotonia cotidiana.

Enredo

Guylain Vignolles é um solteirão na casa dos trinta anos que ama a leitura, mas que possui o pior emprego para os amantes de livros: ele trabalha em uma fábrica de destrói encalhe de livros para reciclagem. Mesmo odiando o trabalho perigoso, tendo um chefe horrível e tendo um colega de trabalho desagradável e puxa saco do chefe, Guylain se dedica a salvar algumas páginas da terrível máquina que picota os livros. E todo dia, na ida ao serviço, pegando religiosamente o trem das 6h27, Vignolles lê em voz alta para os passageiros do trem as páginas que salvou.

Sua rotina muda quando encontra no trem um pen drive perdido em um dos bancos. Ao abrir, encontra vários arquivos de texto, cujo autora é uma escritora misteriosa e talentosa, que relata seu trabalho como zeladora de um banheiro público. Fascinado com a escrita, Guylain agora tem a missão de encontrar a dona do pen drive e devolvê-lo e claro, conhecer a escritora que tanto o encantou.

Narrativa

O livro todo é narrado em terceira pessoa, focando apenas em Guylain e na sua vida. Apesar de na primeira vista parecer uma história sem graça, a narrativa do francês Didierlaurent é bastante sutil e poética, criando uma fabula contemporânea e tocante.

Destaque

Didierlaurent trabalha muito bem com a prosopopeia, isto é, atribuir a objetos e a seres inanimados personalidades e sentimentos humanos. Vemos isso em como ele descreve a máquina de picotar livros que Guylain trabalha como um monstro maligno, uma descrição que fica bem realista. No seu livro, há um quê de naturalismo também, quando descreve seus personagens humanos. Uma trama muito bem trabalhada.

Minha Opinião

Eu confesso: comprei o livro por causa do título, que despertou minha curiosidade (e também por uma pechincha na Black Friday). Mas não me arrependi nem de longe por ter comprado. O Leitor do Trem das 6h27 tem uma narrativa sutil e tocante, uma fabula moderna e contemporânea. Acompanhamos a história de um homem que possui um nome que não gosta, solteiro, na casa dos trinta anos, que possui um emprego que odeia. Mas que na leitura encontra um balsamo para sua vida tão solitária e vazia.

Guylain trabalha em uma fábrica que destrói livros. Não importa se são livros antigos ou ganhadores de prêmios recentes. Eles vêm de todos os cantos da cidade para terem um fim horrendo, um pesadelo para quem ama os livros. Mesmo odiando o que faz e ainda se arriscando em operar uma máquina perigosa que já aleijou seu melhor amigo, Giuseppe, Guylain consegue salvar algumas páginas aleatórias dos dentes da Coisa (aqui é a máquina que picota os livros, não é um palhaço, mas é tão assustador quanto). Podem ser páginas de um livro de história geral, de romance policial ou até mesmo de um livro de receita. Não importa. Guylain as salvas e todo o santo dia, na ida ao serviço, as lê em voz alta para os passageiros do trem das 6h27. Ele não se importa muito com o sentido das palavras que lê, apenas o fato de ler em si é o faz bem. E o torna uma atração para os demais passageiros do trem das 6h27.

Sua pacata vida muda quando ele encontra um pen drive no trem, cheio de textos de uma escritora misteriosa, completamente diferente de tudo o que ele leu. Fascinado pelas palavras de uma desconhecida que também tem um trabalho tão detestável quanto o dele, mas que ainda assim consegue tirar poesia disso, Guylain agora tem um objetivo de vida: encontrar a dona do pen drive e conhece-la.

O livro é bem curtinho, tem 175 páginas, mas não é o tipo de leitura que dá para ser feita rápida. A narrativa é cheia de sutilezas e cenas abstratas, o que a torna uma fabula da atualidade: vivemos vidas tão mecânicas, tão rotineiras, tudo acinzentado, sem cor. Mas ás vezes, algumas palavras escritas de formas tão belas podem dar cor a tudo. E todos podem ser amantes da leitura. Ou serem capazes de escrever algo fascinante, mesmo não tendo um trabalho que pareça, apenas pareça, ter nada haver com e escrita.

A trama possui aqueles tipos de personagens que não são o que aparentam ser, sendo bem mais profundos. Um homem que trabalha destruindo livros e ama ler. Um vigia de fábrica que ama declamar poesias. Um homem aleijado que busca encontrar suas pernas novamente. A medida que o enredo avança, vamos nos surpreendendo em como os personagens vão se revelando e mostrando que são únicos, bem diferentes do normal e bastante cativantes.

O Leitor do Trem das 6h27 é um livro curtinho e pequeno, que cabe numa bolsa ou num bolso de bom tamanho. Dá para levar para qualquer lugar e ler tranquilamente, ainda mais dentro de um trem ou do metrô, até para combinar com a atmosfera da história. O final do livro, apesar de ser um pouquinho imprevisível, fica em aberto, nos fazendo imaginar se Guylain e seus amigos vão ou não mudar de vida, mas é um desfecho muito satisfatório para uma obra tão diferente como esta.

O autor, Jean-Paul Didierlaurent

 

Tainá de Oliveira

Sou Tainá de Oliveira, carioca da gema e tipicamente ariana! Rata de livraria, meu vício em livros começou já no berço. Jornalista, sonho em escrever livros tão bons quanto os que leio e que possam encantar crianças e adormecer adultos!

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