Resenha “Imperfeitos”, de Cecelia Ahern

IMPERFEITOS Book Cover IMPERFEITOS
CECELIA AHERN, PAULO POLZONOFF JUNIOR,
young adult
Novo Conceito
3 de October de 2016
Brochura
320

Celestine North vive em uma sociedade que rejeita a imperfeição. Todos aqueles que praticam algum ato julgado como errado são marcados para sempre, excluídos da comunidade, seres não merecedores de compaixão. Por isso, Celestine procura viver uma vida perfeita. Ela é um exemplo de filha e de irmã, é uma aluna excepcional, bem quista por todos do colégio, além do mais, ela namora Art Crevan, filho da autoridade máxima da cidade, o juiz Crevan. Em meio a essa vida perfeita, Celestine se encontra em uma situação incomum, que a faz tomar uma decisão instintiva. Ela faz uma escolha que pode mudar o futuro dela e das pessoas a seu redor. Ela pode ser presa? Ela pode ser marcada? Ela poderá se tornar, do dia para a noite Imperfeita? Nesta distopia deslumbrante, a autora best-seller Cecelia Ahern retrata uma sociedade em que a perfeição é primordial e quem cometer qualquer ato falho será punido. A história de uma jovem que decide tomar uma posição que poderá custar-lhe tudo.

 

O que seria uma sociedade perfeita? Um lugar aonde todos os indivíduos se respeitam mutualmente, independente das diferenças? Onde pessoas convivem em paz e em harmonia, sem guerras, sem países? Ou um lugar com um rígido código de conduta, onde quem o quebra vira um pária da sociedade? Celestine, nossa heroína de Imperfeitos, vive em uma sociedade assim.

 

ENREDO: 

Celestine North é um modelo para a sociedade: ótima filha, ótima aluna, inteligente, educada, sempre diz as coisas certas nos momentos certos, além ser bem apresentável esteticamente e sempre estar bem vestida. A garota ainda é a perfeita namorada de Art Crevan, filho de Bosco Crevan, juiz supremo do Tribunal. Diferentes dos tribunais comuns, este julga transgressões ao código de conduta que rege a sociedade baseada na perfeição em que Celestine, sua família, seu namorado e sogro vivem. Uma vez condenado pelo Tribunal, o transgressor é marcado como Imperfeito, sendo excluído da vida social e tratado como escória por todos.

Por ser íntima do juiz Crevan e seguir fielmente todas as regras sociais, Celestine acreditava que levaria uma vida tranquila e perfeita ao lado de Art. Mas quando vê um idoso marcado como Imperfeito morrendo dentro de um ônibus e ninguém movendo um dedo para ajuda-lo, Celestine percebe que as rígidas leis que segue nem sempre estão de acordo com o que julga certo ou errado. E que é preciso muita coragem para seguir em frente com suas convecções.

NARRATIVA:

O livro todo é narrado em primeira pessoa por Celestine. Alguns capítulos são bem mais curtos do que os outros, sendo de uma ou até duas páginas, principalmente nos momentos de clímax do enredo.

 

DESTAQUE:

A autora Cecelia Ahern é uma velha conhecida para quem gosta de romances melosos: assinou os livros Simplesmente Acontece, adaptado para os cinemas, O Ano que Te Conheci, A Lista, O Livro do Amanhã, O Presente, A Vez da Minha Vida e seu principal e inicial best-seller: o emocionante P.S: Eu te Amo, que também foi adaptado para as telonas e se tornou um sucesso. Em Imperfeitos, Cecelia Ahern se mostra uma autora bastante versátil, criando uma distopia bastante envolvente e cheia de reviravoltas.

 

MINHA OPINIÃO:

O gênero Young Adult tem estado bastante em alta nos últimos tempos na literatura, tanto, que alguns autores bastante conhecidos, como Cecelia Ahern (P.S: Eu te Amo), começaram a escrever histórias para esse tipo de gênero. “Imperfeitos” é o primeiro volume da série  Flawed (“Falha”, em inglês), que retrata uma sociedade futurista, onde para manter as bases sociais, foram criados um rígido código de conduta, tanto com a estética quanto os princípios. Quem fere essas normas, é considerado Imperfeito e é marcado com ferro quente a letra I, em certas partes do corpo de acordo com o crime que cometeu.

Uma vez condenado como Imperfeito, o indivíduo é excluído pela sociedade, sendo considerado escória e desprezado por todos. Imperfeitos além de marcados, são obrigados a andar com uma braçadeira indicando que são Imperfeitos, possuem toques de recolher, não podem andar em grupos e não podem ter luxos, como roupas caras ou comida de qualidade. E caso seu companheiro seja imperfeito também, o filho do casal é tomado pelo governo.

Esse tratamento desumano era visto como normal para Celestine North, a heroína da história. Criada sob essa ideologia de perfeição, Celestine era o modelo perfeito para essa sociedade: corpo e aparência perfeita, boa filha, aluna inteligente e estudiosa, boa postura e conduta, um verdadeiro exemplo de modelo a ser seguido. Aqui, um elogio: Celestine é negra e possui cabelos cacheados, ou seja, não é o “padrão” de beleza que estamos tão acostumados ter esfregados na nossa cara pelos padrões de consumo que a gente ver por aí. Ela é linda porque é linda e ponto final. Para completar, seu namorado é Art Clevan, filho de Bosco Clevan, o juiz supremo do Tribunal, a entidade que julga os crimes de imperfeição. A vida de Celestine era perfeita. Mas é claro que tudo isso ia dar muito errado, se não, não ia ter história, né?

Celestine acreditava que estaria muito acima da imperfeição. Isso até sua vizinha e professora de piano, Angelina Tinder, ser levada pelos Delatores (uma espécie de polícia de moral) e ser julgada Imperfeita, simplesmente por levar sua mãe em estado terminal para fazer eutanásia em outro pais. Para a sociedade de Imperfeitos, um ato abominável. Como se choque não fosse o bastante, dias depois Celestine se depara com a seguinte situação dentro do ônibus: um idoso Imperfeito está tendo um grave acesso de tosse e ninguém parece dar a mínima para ele. Ao tentar ajudar o pobre homem, Celestine vê sua vida virar completamente do avesso e é aí que o enredo começa a dar uma série de reviravoltas.

Imperfeitos me surpreendeu pelo fato de apesar de retratar uma distopia, a realidade do mundo de Celestine não é muito diferente da nossa. Ninguém aqui é marcado com um ferro em brasa, mas existem quase piores. Cecelia, ao mesmo tempo que cria universo diferente, faz uma ótima crítica ao nosso: também vivemos em uma sociedade baseada “na moral e dos bons costumes”, da “família tradicional”, bastante conservadora, onde quem vai de contra a todos esses valores é tratado como um “imoral”, um (a) louca (a), mentalmente perturbado, a quem pessoas “normais” não devem chegar nem perto.

No livro, há personagens que refletem muito bem certas personas da nossa realidade: políticos corruptos extremamente conservadores, fanáticos religiosos cruéis, mídia sensacionalista, pessoas que fazem de tudo para acabar com a vida de quem fere as regras. O tratamento que os Imperfeitos recebem é completamente desumano e os “perfeitos” acreditam que isso que é o certo, como se a imperfeição não fosse humana. E Celestine sente isso na pele. É uma personagem que logo no primeiro capítulo, se define como alguém de “definições, de lógica, de preto no branco” e pede para que o leitor não se esqueça disso. Ela é uma garota que acredita no certo e no errado, sempre seguindo o caminho mais lógico. Depois que o seu mundo virar de cabeça para baixo, essa visão muda um pouco, mais não totalmente. Por mais que as pessoas digam que ela está errada, Celestine segue o que acha certo. É uma garota forte, mas também inocente, o que vai a colocar em apuros e em situações chocantes várias vezes ao longo do enredo.

 

 

Com Celestine, percebemos que regras e moral são coisas criadas por um pequeno grupo de pessoas para controlar a maioria e tirar todo benefício disso para si. Nem sempre o que a sociedade vende como certo e é realmente certo. Ajudar um idoso é bom, mas não é bom se ele é Imperfeito, é errado. Pessoas que se dizem o modelo ideal, são muitas vezes as mais cruéis. O Juiz Crevan, juiz supremo do Tribunal é uma destas. É manipulador, controlador e ambicioso, tendo todo praticamente todo o controle da política e da mídia, usando e abusando do seu poder para conseguir o que quer. Quando vê que Celestine não vai lhe obedecer e ser servir de modelo para sua visão de mundo ideal, Crevan não mede esforços para transformar a vida da garota em um inferno, mesmo que isso signifique colocar seu próprio filho contra si. Ou ameaçar a família de sua ex nora e qualquer outra pessoa que queira ajuda-la. E quando aparece outras pessoas querendo diminuir seus poderes no Tribunal, Crevan se mostra um perfeito ditador sem caráter, capaz de tudo para se manter no poder. Mas ele não é único vilão da história, não mesmo. E esse é apenas o primeiro volume da série.

O livro todo é narrado por Celestine, e os capítulos são bastante curtos, o que dá um ritmo bem frenético ao enredo, mas que possui picos. Ora as coisas ficam lentas, ora ficam agitadas de mais. Celestine fica em uma tal situação que não sabe em quem confiar, pois todos parecem ter algum plano envolvendo ela. O final fica bastante em aberto, dando muita vontade de ler o próximo livro para saber o que vai acontecer com a protagonista futuramente. Não se sabe se ela vai continuar narrando os próximos livros, seria bem interessante mostrar mais o ponto de vista de outros personagens da história, como Carrick, um rapaz que ficou preso pelo Tribunal junto com Celestine e que também é bastante misterioso para a trama.

Cecelia Ahern sensualizando

Imperfeitos é uma bela estreia da série Flawed e também de Cecelia Ahen no gênero Young Adult. A autora se mostrou muito versátil, criando um enredo que prende e que nos faz querer por mais. Celestine é uma protagonista carismática, o que me fez lembrar um pouco da Katniss Everdeen, de Jogos Vorazes. Embora em situações diferentes, ambas são jovens levadas pela força das circunstancias, sendo eleitas símbolos de resistência, mesmo que não queiram ou que não sintam merecer esse título. Quem gosta de Young Adult e enredos de distopia, vai curtir muito Imperfeitos. E quero a sequência para ontem!

Tainá de Oliveira

Sou Tainá de Oliveira, carioca da gema e tipicamente ariana! Rata de livraria, meu vício em livros começou já no berço. Jornalista, sonho em escrever livros tão bons quanto os que leio e que possam encantar crianças e adormecer adultos!

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  • Thamirys

    Sinceramente? meio parecido com nossa realidade, só falta sermos marcados.
    Adorei a resenha e me interessei muito pelo livro

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