Crônica “O Autor”, de Philippe Medeiros

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O Autor.

Ele, recém divorciado, nenhum filho, um prêmio como melhor autor pela revista “Folks” em 2010, trinta e dois anos.

Ela, estudante de veterinária, relativamente mais nova que ele, talvez uns seis anos, uma aluna exemplar, pelo menos era isso que estava escrito no seu perfil no Facebook, ao lado da sua religião e algo do tipo “apaixonada por Deus”.

A coincidência não parecia ser o forte para nenhum dos dois, ele brincava com a sorte e ela queria apenas saber de fatos. O último encontro dos dois foi em um bar as duas da manhã, ele estava apaixonado, e ela desnorteada.

Ela fazia questão de coçar a queimadura na mão esquerda que marcava o pior dia da sua vida, ele como uma velha característica dos antigos autores tentava decifrá-la e entender no que mais ela estava pensando.

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Talvez ele tenha tomado mais de dois copos de whisky, ela ficou apenas em uma caipirinha de morango, que ele dizia ser coisa de menininha, ela ria e tentava não aparentar ser o último encontro casual entre dois adultos, ela já estava decidida, iria terminar com ele naquela noite, ele tinha guardado no bolso esquerdo calça uma aliança, para ele parecia ser a hora certa para fazer o pedido, para ela o único pedido que caía bem com essa noite era o de distância.

A noite ocorreu bem, ela até aceitou ir para casa dele, para os dois terem aquilo que ela chamava de a “última noite de sexo”. Os dois subiram pelo saguão do prédio na Barra da Tijuca, deram boa noite para o porteiro e foram aos beijos para o apartamento 302, onde o tal autor morava, entrando no apartamento já estava tudo preparado, tinha velas vermelhas espalhadas pela casa, um buquê de tulipas vermelhas e uma garrafa do vinho mais caro que ele achou no super mercado, ele se ajoelhou como tinha visto em um filme dos anos setenta e fez o pedido, ela chorou de raiva e saiu correndo.

O autor achou que a futura veterinária iria voltar, esperou por duas horas e quando a última vela vermelha se apagou ele decidiu que era hora de beber sozinho o vinho que a essa hora já estava quase quente.

Ao acordar pela manhã ele não conseguia imaginar se aquilo foi um sonho ou um pesadelo, pegou o celular e foi ligar para a menina, o número dela tinha sumido do seu celular, as fotos que eles tiraram só mostravam o seu rosto sozinho, sem entender ele desceu correndo para perguntar ao porteiro se ele tinha visto a tal veterinária, e o porteiro retrucou dizendo que ele tinha chego na noite anterior sozinho, o autor sem entender argumentou, mas o seu argumento foi em vão quando o porteiro mostrou os videos de segurança onde mostravam ele entrando pela portaria bêbado e desacompanhado. Ao subir desesperado para o apartamento encontrou o seu notebook aberto com uma página escrita no word.

– Natália? É você?

O autor só conseguia pensar em uma coisa. Não se apaixone por uma personagem.

Philippe Medeiros.

Philippe Medeiros

Autor e roteirista carioca, apaixonado por livros e conversas banais..

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