Mulheres que Escrevem: Queridas Poetas Lésbicas, na Blooks Livraria.

A iniciativa Mulheres que Escrevem surgiu há três anos atrás, na conversa de duas amigas, as escritoras Taís Bravo e Natasha R. Silva, em que perceberam que até mesmo na literatura, a mulher ainda sofria com o pouco espaço oferecido, resultado de séculos de uma cultura machista e opressora. Mesmo contanto com grandes escritoras cujas as obras são atemporais, como O Segundo Sexo da filósofa Simone Beauvoir ou os romances policiais de Agatha Christie, a representatividade feminina na literatura ainda estava muito em baixa. Não havia quase espaço algum para que autoras pudesse expor suas muitas angústias e inseguranças, relacionadas à escrita.

Dessa conversa, saiu o desejo de unir mais mulheres que dedicam suas vidas à literatura para esse debate. Aos poucos, um espaço com segurança e mobilização para descobrir e debater novas possibilidades de produção cultural e literária, focados na escrita de mulheres. O que havia começado com uma newsletter e depois expandido para uma página oficial no Facebook e perfis no Twitter e no Instagram, com centenas de seguidoras, fez com que surgisse a necessidade desses encontros saírem do virtual para o espaço físico. Assim surgiram os encontros abertos ao público, em que escritoras e leitoras podem se reunir e debater abertamente sobre literatura e feminismo.

No Rio de Janeiro, esses encontros são costumeiros na Blooks Livraria, localizada dentro do Espaço Cinema Itaú, em Botafogo. Nesse mês de novembro, o encontro foi dedicado não somente a poesia, mas a poetisas mulheres lésbicas. Para a mesa, as convidas foram as poetisas Angélica Freitas (“Um Útero é do Tamanho de um Punho”), Dara Bandeira (“Cartas a uma Paixão Simples”), Maria Isabel Iorio (“Em que Pensaria Quando Estivesse Fugindo”), com a mediação de Tatiane Pequeno (“Aceno”).

 

Da esquerda para a direita: Maria Isabel, Angélica, Tatiane e Dara.

A primeira rodada de perguntas levantada por Tatiane foi sobre como cada poetisa sentiu o chamado da poesia, acompanhada de uma breve apresentação sobre si. A primeira a se apresentar foi Angélica, que nasceu na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, que contou como foi passar uma juventude solitária nos Anos 80 com a descoberta da sua sexualidade e como tomou gosto pela poesia ao ganhar uma enciclopédia para crianças que ensinava a escrever poemas. A segunda a responder foi Maria Isabel, a mais jovem da mesa, que contou como foi crescer em meio a conservadora Zona Sul do Rio de Janeiro e como a depressão quase lhe tirou a vida, sendo salva por ser assumir lésbica e transmitir suas emoções e pensamentos para o papel, ainda mais em meio ao clima conturbado gerado pelo golpe a primeira presidente mulher do país. A última foi Dara, que nasceu em Nova Friburgo e desde criança chamava a atenção dos mais velhos por gostar de poesia, coisa atribuída a pessoas mais velhas. Inicialmente, não achava que tinha habilidades com o poema, mas ao transcrever seus sentimentos em versos, viu que assim conseguia se comunicar melhor com as pessoas, que por sua vez se identificavam com o que ela escrevia. Assim passou a assumir sua orientação sexual e aprofundar sua paixão pela poesia.

Logo após, Tatiane pediu para que cada uma lesse um trecho de seus respectivos livros para o público. Depois, fez a segunda pergunta, baseando-se no texto da autora Onça Verunschk, sobre violência editorial de gênero, termo criado pela própria autora, sobre práticas machistas dentro do mercado editorial. Após ler os conceitos apontados por Onça, Tatiane perguntou para suas colegas se elas já haviam sofrido situações parecidas. Dara foi a primeira a responder. Ela não chegou a passar por nenhuma situação que foi levantada, em parte, por causa da editora que publica seu livro (Macabéa), que é feita por mulheres e voltada exclusivamente para mulheres. Porém, é muito questiona por escrever poesias românticas, uma vez que ela é uma mulher negra e lésbica, as pessoas acham que ela deveria escrever sobre a representatividade e empoderamento. Não que Dara não goste de escrever ou ler sobre essas questões, ela apoia e acredita sim na força das autoras que escrevem nesse veio, mas que ela prefere não ficar presa a estereótipos, escrevendo sobre o que realmente sente. A autora também revelou que muitos leitores se assustam quando a conhecem pessoalmente, porque seu livro não possui uma foto sua e muitos não conseguem sequer imaginar que uma mulher negra possa escrever poemas sobre o amor. Mas elas podem sim.

No final de cada rodada de pergunta e respostas, Tatiane pedia para que as colegas lessem trechos de seus livros.

Tatiane contou uma experiência que viveu no dia anterior, quando participou de um evento na UFRJ e foi tratada com desdém por um rapaz na entrada. Já Maria Isabel falou sobre a falta que sentiu do discurso lésbico na literatura e no cinema na infância e que é uma narrativa inédita e que ainda precisa conquistar o seu espaço, uma vez que a bandeira lésbica é bastante invisível. Para a autora, o LGBT na arte ainda está voltado mais para o amor (o que não deixa de ser importante), mas que é preciso escrever sobre a identidade, a luta pelo respeito a orientação sexual e contra invisibilidade, que é também uma forma de violência que precisa ser combatida diariamente, principalmente em relação ao direito que toda mulher lésbica tem ao sexo e ao desejo pelo corpo feminino, não apenas se limitando a relações e ao ideal de família. Maria também comentou que a opressão de mulheres na literatura começa antes mesmo delas escreverem, no momento em que muitos desmerecem sua opinião. É preciso passar por vários estágios de autoestima para uma autora finalmente ter a coragem de escrever.

O público foi grande e praticamente lotou a livraria!

Angélica Freitas contou que quando trabalha como repórter em um jornal em São Paulo, tomou conhecimento dos saraus de poesia, mas reparou que embora boa parte do público eram mulheres, pouquíssimas tinham o devido espaço para declamarem seus próprios poemas, um espaço tomado por homens. Nessa época, entre 2004 e 2005, começaram a surgir os blogs de poesia, onde mulheres tinham mais espaço de expor seus textos, mais mesmo assim eram invisíveis em comparação a autores homens.  A autora disse também que nunca passou dificuldade com a publicação de seus livros, mas com a recepção dos mesmos, sim. Seus poemas foram lidos com muito preconceito e misoginia, de modo que Angélica prefere muito não se ater a essa parte, uma vez que os críticos, em sua maioria homens, chegaram a se incomodar muito com seus poemas. Como mulher e lésbica, a autora acredita que esse mercado na literatura provoca muito ruído e cegueira de leitores e críticos, mas que vai continuar escrevendo o quanto puder.

As autoras, no final do evento. Taís Bravo e Natasha R. estão no meio.

Após mais uma rodada de leitura de poemas, a questão agora foi a militância lésbica além da literatura. Angélica contou que sua forma principal de militância é a escrita, embora se sinta bastante desnorteada com essa onda de ódio na atualidade, um retrocesso aos anos 90, quando era bem complicado de andar na rua sendo lésbica. Que é importante reagir a esse ódio com inteligência e que é importante que encontros assim para criar resistência e companheirismo frente a opressão. Já Dara revelou que não milita o tempo todo e que muitas vezes é preciso se fazer de surda em relação as ofensas que ouve, tudo muito cansativo. Mas o fato de ser lésbica a fez ser autodidata, uma vez que precisa se justificar por tudo o que faz, desde se relacionar com mulheres a explicar porque não sente vontade de se relacionar com homens. Embora não milite o tempo todo, Dara afirma que só pelo fato de existir já é uma prova de militância e resistência. Maria contou um caso recente de homofobia que sofreu junto com sua namorada com um motorista do Uber e ao denunciar a ação do mesmo para a plataforma, que amenizou a situação, dizendo que o motorista em questão não ia mais atender elas, mas continua rodando como se nada tivesse acontecido. Para a autora, militar é importante e aprendeu muito lendo relatos parecidos, mas que a militância é algo cansativo. É preciso que as mulheres se juntem para criar mais resistência a esses ataques, mas sua forma principal de militar é principalmente a escrita.

No final, foi aberto as perguntas para o público.

Para fechar o encontro, todas leram mais poemas, em especial, os poemas ou trechos que para cada uma é o mais importante e que gostariam de serem lembradas por estes. Logo após a última rodada de declamação, foi aberta as perguntas para o público e depois as autoras ficaram disponíveis para autografar livros. Todas as obras das poetisas estão disponíveis na Blooks Livraria.

Cada livro está disponível para compra na livraria Blooks.

 

 

 

Tainá de Oliveira

Sou Tainá de Oliveira, carioca da gema e tipicamente ariana! Rata de livraria, meu vício em livros começou já no berço. Jornalista, sonho em escrever livros tão bons quanto os que leio e que possam encantar crianças e adormecer adultos!

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