Crônica: “Banho de Sangue”, de Philippe Medeiros

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O meu corpo foi encontrado desnudado as sete da manhã de uma terça-feira sombria no apartamento 302, havia resquício de sangue por entre os meus cabelos castanhos que escorriam até a minha tatuagem na nuca, eu fiquei ali sentada observando a minha morte, vi os peritos que entravam correndo e se horrorizavam com a trágica cena do banho de sangue. Eu era a mais nova de três filhas, mas nenhuma das minhas irmãs fez questão de aparecer naquele patife funeral improvisado.
A causa da morte?

Eu não lembro, mas também era previsível não lembrar, tinha tomado uma imensa porrada na cabeça a alguns segundos atrás.
Marli, uma velha senhorinha que morava no 104 entrou e começou a gritar palavras de ódio, ela que sempre fora tão gentil quando me via subindo as escadas, não precisava mentir naquele momento, ela me odiava, o que era maravilhoso, porque eu sempre a odiei, e agora eu também não precisava mentir.

Já havia passado duas horas, Marli desistiu de me deixar mais chateada com a minha morte e foi para casa ver o seu programa matinal, os peritos ainda não tinham certeza da causa da morte, até que um deles encontrou sêmem na minha mão, um outro gritou de fora do comodo como se fosse um gol do seu time de futebol favorito.

-Estupro!

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Todos fizeram movimentos acertivos com a cabeça, enquanto um dos peritos verificava uma escrivaninha que tinha por perto para descobrir se havia ocorrido luta entre eu e o meu estuprador, foi quando ele encontrou um cartão do meu trabalho.

“Garotadeprograma.com”

Os outros peritos curiosos, vieram correndo com cara de faminto, olhar o cartão, encontraram também um catálogo de fotos minhas de dois meses atrás, ao perceberem que eu era uma “puta” decidiram que a possibilidade de estupro tinha sido descartada.

Fecharam suas malas, guardaram seus equipamentos, e logo após assinaram o laudo onde pude ler algo como: “acidente de trabalho.”
Porque no Brasil, nenhuma garota de programa tem voz para dizer que foi estuprada.

Philippe Medeiros

Autor e roteirista carioca, apaixonado por livros e conversas banais..

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  • Dayse Ribeiro

    Nossa, Philippe parabéns por trazer em forma de crônica um tema tão polêmico como o estupro! Infelizmente ainda muitas mulheres são tratadas com descaso, do mesmo jeito citado aí acima.. só pq descobriram que ela era “puta” achavam que estupro não era nada demais, já que ela estava “acostumada” com o sexo. Mas não é bem assim, né? Precisamos que mais pessoas sejam alertadas por uma crônica com tanto potencial como a sua.

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