Crítica: O Mínimo Para Viver

Netflix adora uma polêmica. Depois da polêmica série “13 Reasons Why”, que retrata o suicídio juvenil como tema principal, agora é a vez do streaming abordar outro tema polêmico que assombra vários jovens: a anorexia.

Sinopse

Uma jovem (Lily Collins) está lidando com um problema que afeta muitos jovens no mundo: a anorexia. Sem perspectivas de se livrar da doença e ter uma vida feliz e saudável, a moça passa os dias sem esperança. Porém, quando ela encontra um médico (Keanu Reeves) não convencional que a desafia a enfrentar sua condição e abraçar a vida, tudo pode mudar.

Minha Opinião

To The Bone no original, O Mínimo Para Viver gira em torno da personagem Ellen (Lily Collins), uma garota de 20 anos que se encontra em um estado bastante avançado de anorexia. Tendo passado por quatro internações malsucedidas, a saúde de Ellen está bastante crítica: praticamente pele e osso, a garota precisa ser tratada urgentemente, pois está prestes a morrer, caso não continue se alimentar.

De personalidade difícil, Ellen não se adapta a nenhum centro médico especializado em distúrbios alimentares, o que faz com que sua madrasta, Susan (Carrie Preston), busque uma última alternativa: o tratamento não convencional do Dr. William Beckham, vivido pelo talentoso Keanu Reeves, um médico que não possui papas na língua em falar abertamente de doenças alimentares com seus pacientes. É essa postura que convence Ellen a se internar em um período de seis meses em uma casa onde o Dr. Beckham cuidada de seus pacientes.

Minha primeira crítica nesse ponto é que por mais que o talento de Keanu Reeves sempre ganhe destaque, seu personagem foi pouco explorado no filme. Um pouco decepcionante, pois um ator com um nome de peso e um papel coadjuvante desta trama cria grandes expectativas para o personagem. Para um médico que é conhecido por seu tratamento pouco convencional e que consegue convencer a protagonista da história que se recusa a buscar a ajuda se internar, Dr. Beckham aparece bem pouco durante o filme. Claro que todos os momentos em que aparece são marcantes, mas foi abaixo do esperado.

Apesar de toda a trama focar muito em Ellen (que mais tarde adota o nome de Eli), o filme não mostra como a garota chegou a tal ponto de sua doença que corre sério risco de vida. Apenas retrata a consequência do avanço da doença: Ellen está absurdamente magra, praticamente pele e osso, sua aparência gera repulsa. Uma das primeiras cenas mostra Susan obrigando sua enteada a se pesar, momento no qual Ellen fica apenas de roupas íntima. E se o objetivo dos produtores do filme era chocar o espectador, conseguiram. A visão corpo magro da protagonista, com ossos muito salientes sobre a pele ferida e em mal estado é realmente de chocar, muito difícil de se olhar. Mas se a proposta é falar de anorexia e outros distúrbios alimentares, o filme pecou muito na falta de informações sobre a doença. Seu foco mesmo é nas consequências do transtorno e não nas causas.

A personalidade de Ellen é o brilho da trama. Uma garota de personalidade forte e sarcástica, sendo bem expressiva e mostrando bastante desdém diante da grave situação que se encontra. Ela é do tipo que sabe de cor as calorias de todo o tipo de alimentos, como apenas bocados de legume e faz abdominais para perder mais peso, o que causa ferimentos na sua coluna, devido a fraqueza de seus músculos e pele. A causa de seu transtorno alimentar se deve aos conflitos familiares que passou desde a infância: pais separados, mãe que descobriu sua sexualidade tardiamente e casou-se com a melhor amiga, pai ausente que passa todo o tempo trabalhando e tendo pouco tempo para a filha, madrasta bem-intencionada, mas que crítica abertamente a mãe da enteada e seu modo de vida. Ellen é uma talentosa desenhista, que procura transferir para o papel tudo o que sente, mas quando seus desenhos são relacionados a um trágico acidente (que é apenas citado no enredo) a garota se afunda ainda mais em seu transtorno.

Mesmo criando uma protagonista bastante carismática, o filme pecou muito tem não explorar o potencial dos demais personagens da história, não apenas o Dr. Beckham. Os colegas de internato de Ellen, também em estados bastante críticos de seus respectivos distúrbios alimentares, apesar de todos terem personalidade bastante interessante, são pouco explorados, os deixando bastante estereotipados. Em especial o personagem Luke, um garoto britânico de personalidade alegre, que demonstra interesse amoroso por Ellen. Não fica explicito qual é o transtorno alimentar que ele possui, o filme mostra que além da doença, Luke é um bailarino afastado dos palcos devido a uma fratura no joelho, mas não fica claro se isso é uma consequência ou não de sua doença. Isso fica aberto a interpretação do espectador. Único garoto da casa, Luke tem uma personalidade oposta à de Ellen, se mostrando um cara engraçado, acolhedor, que procurar animar e incentivar todas as suas colegas de casa, uma pena a trama não se aprofundar muito nele.

Outras personagens que ganham destaque é Susan, a madrasta de Ellen, e Kelly, meia irmã da garota. Mesmo não sendo sua filha de sangue, Susan se preocupa muito com Ellen e sempre tanta ajudar a garota a superar a doença, mesmo usando métodos equivocados, como desencorajar a garota de exibir seus desenhos no Tumblr após o incidente com uma fã ou culpar a sexualidade da mãe da menina pelo seu transtorno alimentar. Kelly, vivida pela atriz Liana Liberato, é a pessoa mais próxima de Ellen e que mais sofre com o avanço da doença da irmã. Um dos momentos mais tocantes do filme é quando Kelly confessa emocionada que seu medo é que a irmã não viva o bastante para compartilhar os momentos mais importantes de sua vida, como na sua formatura ou em viagens escolares, que Ellen acabou perdendo por estar internada ou ter passado muito mal. Kelly também não consegue entender como a irmã não pode simplesmente se alimentar normalmente, pois acredita que comer resolveria todo o problema. É o notável nesse momento do filme como a confissão da irmã mais nova toca emocionalmente Ellen, que geralmente é distante das demais pessoas. Na minha opinião, uma das cenas mais emocionantes do filme.

Por abordar um tema tão polêmico como a anorexia, é claro que O Mínimo Para Viver recebeu uma chuva de críticas das organizações de saúde críticos mais ferrenhos e conservadores. A atriz Lily Collins, que defende com veemência o filme, confessou ter sofrido de anorexia na adolescência e perdeu bastante peso com a ajuda de uma nutricionista para poder viver o papel de Ellen, ato por qual foi muito criticada, mesmo sua atuação sendo muito convincente. Com seu primeiro filme de estreia, a diretora Marti Noxon, que ganhou renome nas produções dos seriados Grey’s Anatomy e Buffy, a Caça-Vampiros, também sofreu com o distúrbio na juventude. Mas para uma atriz principal e uma diretora que sofreram anorexia, deixaram faltar muito mais aprofundamento e exploração da doença e dos outros transtornos alimentares que a película se propôs em abordar. Talvez assim, O Mínimo Para Viver poderia fazer mais frente as críticas.

Marti Noxon e Lily Collins

O final deixando em aberto para suposições se Ellen vai levar ou não o tratamento adiante é um pouco desanimador, pois não conseguiu sustentar as cenas clímax que o antecedem, deixando um espectador um pouco insatisfeito com o desfecho. Mas apesar dos pesares, o filme não é ruim de se assistir. O enredo prende e os personagens são interessantes. Vale a pena dar uma assistida.

 

Ficha Técnica

Data de lançamento: 14 de julho de 2017 na Netflix

Duração: 1h 47min

Direção: Marti Noxon

Elenco: Lily Collins, Keanu Reeves, Carrie Preston mais

Gênero: Drama

Nacionalidade: EUA

Tainá de Oliveira

Sou Tainá de Oliveira, carioca da gema e tipicamente ariana! Rata de livraria, meu vício em livros começou já no berço. Jornalista, sonho em escrever livros tão bons quanto os que leio e que possam encantar crianças e adormecer adultos!

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  • Amei a critica amore, muito bom mesmo. Eu vi o filme com a Lu e senti falta de mais cenas do médico.

  • Laura Helena Amorim

    Assisti ontem e fiquei apaixonada pelo filme, a atuação da Lily Collins foi impecável como sempre <3

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