Crítica “A Forma da Água”, de Guilhermo Del Toro

Sinopse Oficial

Elisa (Sally Hawkins) é uma zeladora muda que trabalha em um laboratório onde um homem anfíbio (Doug Jones) está sendo mantido em cativeiro. Quando Elisa se apaixona pela criatura, ela elabora um plano para resgatá-lo com a ajuda de seu vizinho.

Minha Opinião

E se a mocinha se apaixonasse por um monstro? Um monstro de verdade, sem ser um príncipe enfeitiçado? E nesse conceito que o filme se baseia, um verdadeiro conto de fadas, mas para adultos.

Guilhermo Del Toro traz de volta a sua paixão por seres fantásticos e enredos de surrealismo fantástico de volta para as telonas, desde O Labirinto do Fauno (2006), filme que o consagrou como diretor. Nesse seu novo filme, Del Toro buscou inspiração em uma de suas películas favoritas, O Monstro da Lagoa Negra (1954), que conta sobre um pesquisador que ao fotografar uma criatura hominídea com escamas e guelras na Floresta Amazônica, viaja de volta para seu pais para buscar apoio para investigar tal monstro, mas quando retorna para o acampamento em que deixou sua equipe, a encontra dizimada brutalmente, tudo indicando que foi a criatura que matou a todos.

As inspirações desse filme estão principalmente no monstro aquático de A Forma da Água, desde a sua aparência e até mesmo na sua origem, na Amazônia, onde foi capturado pelo vilão do filme, o Coronel Strickland (Michael Shannon). Porém, Del Toro não apenas gosta do gênero fantástico, como também o faz com brincadeiras nada convencionais, em que a mocinha se apaixonada perdidamente pelo monstro!

E aí que chegamos na excelente atuação de Sally Hawkins na pele Elisa Esposito, uma faxineira que trabalha em uma instalação militar secreta em plana Década de 60, no auge da Guerra Fria. Elisa foi uma criança órfã, possui estranhas cicatrizes no pescoço e além de tudo é muda. É quando vemos o brilhantismo de Sally em cena: a atriz nos dá uma verdadeira aula de atuação usando apenas a linguagem corporal: mesmo que a personagem não diga uma palavra, podemos entender tudo o que ela pensa, sente e comunica usando apenas as expressões de seu rosto e seus gestos com as mãos.

Nas primeiras cenas, vemos o quanto a vida da protagonista é metódica: acordar, preparar seu café da manhã e cozinhar ovos para o lanche para o trabalho, tudo isso enquanto se toca durante o banho. Pois é. O filme tem uma dose considerável de erotismo, algumas cenas bem explícitas…

Logo após seus rituais vespertinos (Elisa trabalha no turno da noite), nossa heroína vai para seu trabalho, no qual encontra sua melhor amiga Zelda, aqui vivida por outra atriz igualmente brilhante, Octavia Spencer. Zelda compensa o silencio de Elisa falando pelos cotovelos e traduzindo os gestos da amiga para os colegas de trabalho, também é que mais defende Elisa na instalação militar. Octavia mesmo fazendo o papel de alivio cômico, não se mostra diminuída em nenhum aspecto de seu talento de atuação. Mesmo garantindo algumas risadas, Zelda é responsável por uma das muitas sub tramas do enredo: o machismo e o racismo da década de 60, ainda mais em um ambiente repleto de homens brancos, que por mais que tentem, não são capazes de intimidar Zelda e sua protegida, Elisa.

Quando as duas amigas são designadas para limpar um laboratório da instalação, dão de cara com um ser misterioso preso em um tanque e escoltados por soldados, liderados pelo Coronel Strickland, novo chefe de segurança do local e responsável direto pela guarda do monstro. A tal criatura é humanoide, como o corpo coberto por escamas, barbatanas e guelras, que logo desperta a fascinação de Elisa, que não resiste em examinar o tal ser mais de perto. Usando a desculpa de limpar o laboratório, aos poucos Elisa oferece comida ao monstro, coloca músicas para ele ouvir e o ensina a linguagem de sinais, criando assim afeição pela criatura.

 

Mas é claro que o Coronel Strickland não se contenta em deixar o monstro apenas em vigilância. Sádico e vendo na criatura alguma vantagem na corrida armamentista contra os russos, Strickland convence seus superiores a sacrificar o monstro para disseca-lo, obrigando Elisa a correr contra o tempo para resgatar seu mais novo amigo e contando com a ajuda de seu vizinho Giles (Richard Jenkins), no qual tem uma relação de pai e filha.

A escolha de elenco foi muito bem-feita para o enredo e seus personagens com suas sub tramas. Michael Shannon está mais uma vez confortável no papel de vilão, dessa vez, interpretando um personagem sádico e autoritário no trabalho, que busca sempre de destacar no serviço, não importando o quanto extremo são os seus meios para justificar seus fins, uma interpretação visceral de maldade. Já Richard Jenkins dá a vida a um homem idoso, carregando o peso de sua carreira como desenhista fracassado e escondendo sua homossexualidade, bastante reprimida na época. Elisa é praticamente a sua única amiga e a devoção entre eles é mutua, pois ambos são excluídos da sociedade e encontram apoio um no outro, até mesmo na ideia louca de Elisa de tirar a criatura do laboratório.

Quando o personagem consegue ser um tremendo FDP, vemos o talento do ator em fazer um vilão!

Doug Jones, que interpreta monstro, também está muito confortável no papel de criatura, uma vez que tem experiência em papeis de seres incomuns, como em Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado e Star Trek: Discovery. A maquiagem de seu monstro aquático está muito bem-feita e mesmo com o rosto coberto por uma máscara, o ator consegue transmitir muito bem as emoções do monstro, exatamente como Sally faz com a musa Elisa. Isso mostra a forte química entre os dois protagonistas, tanto, que quase não estramos quando os dois se apaixonam um pelo outro. Quase.

 

Além da ótima trama, que consegue retratar bem a Guerra Fria, espionagens, xenofobia e preconceitos dos anos 60, a fotografia do filme é belíssima, com cenários bem construídos pela direção de arte, que caprichou nos planos de cena. A paleta de cores tem tons pálidos de azul e verde, dando um aspecto de estranheza e fantasia, para combinar com a atmosfera da história. Uma boa influência do cinema francês. A trilha sonora é primorosa, com músicas que se encaixam perfeitamente com cada cena e de acordo com a época retratada: jazz e até mesmo Carmem Miranda está presente!

A Formula da Água é um filme fantástico, de encher os olhos, com uma trama envolvente e com personagens bastante cativantes. A dedicação do diretor e seu carinho pelo gênero são bem visíveis, talvez, sua nova obra prima. É cedo afirmar se o filme ganhará o Oscar, mas uma vez assistido, dá para entender porque foi indicado a tantos prêmios. Para quem adora fantasia e quer ver uma história de amor que foge do convencional, esse filme é mais do que indicado!

 

Ficha Técnica

Título: A Forma da Água (The Shape of Water)

Ano: 2017

Direção: Guillermo del Toro

Lançamento: 1 de Fevereiro de 2018 (Brasil)

Classificação: 16 anos

Duração: 123 minutos

País: EUA

Tainá de Oliveira

Sou Tainá de Oliveira, carioca da gema e tipicamente ariana! Rata de livraria, meu vício em livros começou já no berço. Jornalista, sonho em escrever livros tão bons quanto os que leio e que possam encantar crianças e adormecer adultos!

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