Crítica: 13 Reasons Why

Há alguns meses atrás, fiz a resenha do livro “Os 13 Porquês”, que deu origem a série homônima da Netflix, que estreou no fim do mês de março no canal de streaming. Vamos ver como a série se saiu perante o livro!

 

 

Sinopse

Ao voltar da escola, Clay Jansen encontra na porta de sua casa uma estranha caixa misteriosa. Abrindo o pacote, ele se depara com 7 fitas cassete, onda casa lado de uma fita está numerado do 1 ao 13. Quando coloca a primeira fita para tocar, Clay ouve a voz de alguém que jamais imaginava que iria escutar novamente: Hannah Baker, a garota por quem era apaixonado e que havia acabado cometer suicídio.

Nas fitas, Hannah dá 13 motivos para os quais ele decidiu tirar sua própria vida. Os motivos estão ligados a 13 pessoas com que a garota conviveu na escola e que tornaram sua vida um inferno. Clay é uma dessas pessoas. Desesperado e ao mesmo tempo apavorado com a ideia de ter feito mal a Hannah, o garoto começa a ouvir as fitas, aos mesmo tempo que confronta todas as outras pessoas envolvidas, enquanto começa a procurar uma maneira de levar justiça para todo o mal que Hannah Baker sofreu.

 

 

Minha Opinião

É raro uma série ou um filme se sair melhor do que o livro em que se baseia, mas “13 Reasons Why” como série, conseguiu se superar. Enquanto no livro o foco era totalmente no ponto de vista de Clay e Hannah, a série expande para os demais personagens da trama, dando muito mais profundidade para cada um, algo que no livro ficou muito superficial.

Durante o andamento da série, temos a visão de como as fitas afetou cada pessoa envolvida, bem como a consequência de seus atos. Isso porque, quem já leu o livro ou já viu toda série, sabe que Hannah não foi a única personagem afetada por toda a trama.

 

 

Bem diferente do livro, Clay não houve as fitas tudo de uma vez, o que gerou várias piadas e memes pela internet. Porém, faz todo o sentido, afinal, se o protagonista ouvisse todas as fitas em 24 horas, como no livro, não haveria como estender a série tanto assim. Mesmo assim, a principal diferença nesse ponto é que temos um Clay hesitante e receoso, bem diferente do Clay do livro, ávido e obsessivo para saber de toda a verdade. Na série, apesar da grande curiosidade de saber o que de fato aconteceu com Hannah, ele morre de medo de descobrir o que foi que fez que teria levado a garota que amava a se matar. E a medida que vai avançando nas fitas e descobre o quanto grave é o teor das acusações de Hannah, esse medo só aumenta.

Cada episódio envolve um lado de cada fita, a pessoa no qual Hannah fala diretamente e Clay confrontando esse personagem, basicamente. Mas os demais personagens são bem presentes durante todos os episódios. Como Clay é um dos últimos a receber as fitas, os demais envolvidos começam a acompanhar seus passos bem de perto. Quando Clay começa a demonstrar sua vontade de revelar toda a verdade a publicamente e buscar uma espécie de vingança contra todos que prejudicaram Hannah, a maioria tenta faze-lo se calar, como Justin Foley, que até cogita em agredi-lo.

Um personagem muito significativo é o Tony, amigo de longa data de Clay. No livro, Tony é a pessoa de quem Clay pega o gravador para ouvir todas as fitas e o personagem só começa a aparecer mesmo do meio para o fim do livro. Já na série, Tony está presente todo o momento. Não fazem nem questão de esconder que Tony foi a pessoa escolhida por Hannah para vigiar todos os treze e também guardar as cópias da fita, isso é revelado nos primeiros episódios. Tony também não faz a menor questão de esconder que está vigiando Clay. Basicamente, é a pessoa responsável para evitar que Clay surte de vez, muitas vezes o impedindo de tomar alguma atitude precipitada ou de fazer besteira, quase como um anjo da guarda. E também, para garantir que Clay ouça todas as fitas, por mais que o mesmo implore para que Tony revele de uma vez por todas o que foi que ele fez a Hannah.

 

 

Como disse mais acima, o ponto alto da série, é dar mais profundidade ao enredo, focando em outros personagens e não só concentrado em Hannah ou Clay. Uma coisa que o livro não mostra, só cita, sãos os pais de Hannah, que tem uma presença bem ativa na trama do seriado, em especial a mãe da garota, que está decida a processar a escola por negligencia com a filha e busca a todo momento provas, testemunhas ou pessoas que praticavam bullying com Hannah para incriminar ainda mais o colégio. Já o pai de Hannah é mais receoso em processar a escola no começo, mas depois decide apoiar os esforços da esposa. Os dois são donos de uma farmácia, o motivo que levou a família a se instalar na cidade, que está quase indo à falência.

Os pais de Clay também estão mais presentes. A mãe do rapaz chega a aparecer em alguns trechos do livro, se mostrando uma pessoa mais tranquila e compreensiva, que por mais que notasse que o filho estava perturbado, não o confrontava para saber o que estava acontecendo, lhe dando espaço. Na série, sua postura muda completamente. Além de se preocupar muito com o filho, a mãe de Clay é também a advogada que defende a escola contra o processo da família Baker. No momento que percebe que o filho está perturbado, sua mãe tanta de várias formulas faze-lo falar o que está acontecendo, tenta o impedir de sair de casa e à medida que a história avança, teme que Clay também venha a apresentar comportamentos suicidas, o que também a leva a investigar a morte de Hannah e as pessoas com quem a menina se envolveu na escola. O pai do rapaz aparece pela primeira vez, ele nem havia sido citado no livro. Diferente da esposa, o pai de Clay, um professor de literatura, tenta ser mais compreensivo com o filho, tentando ter uma conversa amigável com ele, de modo que ele possa se abrir. Apesar de ambos perceberem que algo está errado com o filho, Clay não se abre com os pais e muitas vezes o vimos fugir da conversa, preferindo resolver seus problemas por contra própria, sem envolver os adultos.

Outro ponto interessante é a diversidade do elenco. Além da diversidade racial, como negros, brancos e asiáticos, há também a diversidade sexual, com personagens assumidamente homossexuais e personagens que entram em conflito com sua própria sexualidade. E todos esses personagens são inseridos de forma natural na trama, sem ser algo artificial demais, como muitos produtos audiovisuais da atualidade que para dizer que apoiam a diversidade, colocam personagens LGBT, mas completamente caricatos. Em 13 Reasons Why, os personagens LGBT são verossímeis, com conflitos internos e externos bem reais.

 

 

Quanto aos personagens principais, Clay em si não é um personagem muito cativante. É aquele típico “bom moço”, que sempre tenta ser “certinho”, correto em tudo o que faz, quer enxergar tudo preto no branco e branco no preto. Não bebe, não se droga, não vai a festas, tem comportamento na escola exemplar, não tem desavença com ninguém. E é essa postura que muitas vezes o fez duvidar da reputação de Hannah, quando esta estava viva. Depois das fitas, sua personalidade muda. O medo e desespero de saber toda a verdade e a raiva que sente das outras pessoas envolvidas o deixam inconsequente e muitas vez fazendo atos estúpidos, quase se expondo ou pondo a vida em risco. Ficamos com pena dele em boa parte do tempo, mas nas outras, dá vontade de lhe dar um tapa na orelha por ser tão medroso e pelas burradas que faz.

Já Hannah é uma pessoa boa, inteligente, divertida e uma boa amiga, mas que infelizmente, dá importância até demais para o que os outros pensam dela, o que a prejudica muito. Ela é o tipo de garota com que seria muito legal fazer amizade, mas o problema é que ela é muitas vezes carente. Hannah chega a tal ponto que ela não consegue mais ver seus pontos fortes e passa acreditar em tudo o que pensam dela. É triste ver que tudo o que aconteceu poderia ter sido evitado se ela conseguisse encontrar alguém confiável para conseguir se abrir e se essa pessoa tivesse capacidade de realmente ouvir tudo o que Hannah, sem abrir a boca para sair julgando.

 

 

A série fez um sucesso, mas também gerou muita polemica a seu respeito. Muitas mídias chegaram a pachorra de dizer que essa série não deveria ser exibida, porquê, segundo eles, 13 Reasons Why retrata o suicídio, abuso sexual e drogas de maneira para entreter, não se aprofundando demais nos conflitos mentais de Hannah, dando a entender que tirar a própria vida seria uma solução mais fácil para resolver os problemas. E que isso incentivaria ainda mais pessoas com comportamentos suicidas a cometerem de fato o suicídio. Besteira, na minha opinião.

Vamos aos fatos: acontece que no ano 2000, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um manual de prevenção a suicídios. O texto faz recomendações para a abordagem do suicídio em produtos audiovisuais, como jornais, programas de TV, filmes e series, tais como: não mostrar o rosto, nem revelar o rosto da vítima, não reproduzir cartas ou qualquer outro registro que a vítima tenha deixado antes de morrer, revelando sua real intensão e nem retratar a morte da vítima. Com isso, vemos que 13 Reasons Why não cumpriu nada das recomendações feita pelo manual. Mas, gente, reparem: esse texto foi escrito há 17 anos atrás. Muita coisa mudou nesse meio tempo.

Como por exemplo, que somente no ano passado, em 2016, o número de casos de morte por suicídio foi cerca de oitocentas mil mortes, quase chegando a 1 milhão de casos, segundo a OMS, quase 1,4% das causas de mortes ao redor do mundo. A cada 40 segundos, uma pessoa tira sua própria vida e para cada morte, há 26 tentativas de suicídio. A média mundial para esses casos é 11,4 para cada 100 mil habitantes, e 75% dos casos acontecem em países de baixa renda, a maioria no sudeste asiático. Do contrário do que se pensa, os casos de suicídio acontecem mais homens do que mulheres, numa proporção de 15/100 mil apenas a 8/100 mil. E apenas 28 países possuem estratégias de combate ao suicídio… esses são os dados mais recentes da OMS sobre esse problema.

O suicídio é atualmente uma das causas que mais matam jovens no mundo. Desbancou a aids no ano passado. E isso não motivo para se comemorar. Muita gente não leva esse problema sério. Acha que isso é escolha  de pessoas com mentes fracas, que “não tem Deus no coração”, que fazem de tudo para chamar a atenção.  Tudo besteira sem fundamento. Outras falam que não tem como prever se uma pessoa vai se matar ou os motivos que levam alguém a planejar a própria morte, pois são vários. Sim, muitas as causas. Transtornos mentais, como depressão e bipolaridade. Bullying. Abusos físicos e mentais. Estresse. São vários fatores. Mas o que todos têm algo em comum: a maioria das pessoas não quer conversar sobre esses tipos de assunto.

 

 

Como também não levam a sério quando alguém diz que não vê mais sentido nada vida, que não fará mais falta a ninguém. Que não se sente animo ou disposição para estudar, trabalhar ou conversar com amigos e família. Que se isola, que pensam em se matar. Nunca, mais nunca subestime quem diz que pensa ou tenta se matar. Quem faz isso tem 30 vezes mais chances de cometer suicídio. Então não ofenda, não julgue, não culpe. Não faça como Clay ou quaisquer outras pessoas que ignoram completamente a Hannah e a julgarem sem saber realmente o que a menina estava sofrendo. Falar é muito fácil, ajudar alguém é que o difícil. Mas é o necessário para evitar muitas tragédias.

Por isso que dizer que 13 Reasons Why não deve ser vista porque incentiva o suicídio é uma tremenda besteira. A série pode ter exagerado um pouco na pegada teen ou exagerado em cenas explicitas, mas em nenhum momento foi a intensão dos produtores incentivar adolescentes a se matarem. Nas palavras da produção (onde a cantora e atriz Selena Gomes faz parte), o objetivo da série, ainda mais a cena que Hannah se mata, não era de incentivar ou tornar um espetáculo gratuito a morte voluntária, mas sim de tornar algo doloroso de se ver, mostrando que o suicídio que não é algo que valha absolutamente a pena de ser pensado e feito.

Claro que a série não é recomendada para menores de 16 anos ou para pessoas que já estão mentalmente perturbadas. Psicólogos recomendam que pacientes diagnosticados com problemas mentais graves não assistam a série, pois já estão mentalmente fragilizados. Como disse a psicóloga Danielle Zeoti “culpar a série pelo suicídio de alguém é como culpar um termômetro por diagnosticar uma febre”.

Não devemos falar de suicídio? Somente depois da estreia de 13 Reasons Why, o número de e-mail pedindo ajuda ao Centro de Valorização da Vida (CVV) subiu em 445%. As visitas no site da CVV também subiram em 170% e o número de ligações subiu em 220%. O que diabos é o CVV? Uma entidade filantrópica e sem fins lucrativos, que procura prestar serviços voluntários e gratuitos de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo. Antes da série, muitas pessoas sequer sabiam da existência do CVV. Ou seja, muitos suicídios ou tentativas foram evitadas desde que essa série estreou. E ainda acha que não se deve falar de suicídio?

Suicídio é caso de saúde pública, não são casos isolados. Pode ser sim previsto e evitado, ainda mais em relação aos jovens. Não se pode ver toda a série e dizer que Hannah foi fraca, que não soube “aguentar” os boatos. Ela procurou sim por ajuda, tentou se abrir, mas foi completamente ignorada, não foi levada a sério. Decidir se matar não foi uma decisão tomada por impulso. Hannah passou por um caminho longo e tortuoso para chegar a esse ponto. Ela não conseguiu enxergar uma saúda. E isso não é culpa somente dela. Ninguém lhe estendeu a mão quando ela mais precisou. A série também comenta sobre o estupro e como estamos inseridos num tipo de cultura em que as vítimas são sempre desacreditadas e os culpados de fato, os estupradores, quase sempre ficam impunes. São temas pesados? Sim, muito. Mas são temas que podem mais serem tabus, varridos de volta para de baixo do tapete, com tantas vítimas perdendo sua vontade de viver e morrendo. Esses assuntos devem ser debatidos sim, por escolas, famílias, políticos, a sociedade toda não deve ignorar mais nada.

A série, assim como o livro, prende do início ao fim. Foi muito bem adaptada e foi mais além. E não se prendam a opiniões extremistas demais, assistam a série, por mais teen que deixou parecer, retratou muito bem as situações de abusos físicos e psicológicos que acontecem na realidade dos jovens, coisas que adultos não levam a sério. E que os jovens também não percebem a gravidade que seus atos fazem sobre outras pessoas.

 

 

Não se julgue como Justin. Não se omita como a Courtney. Não ofenda como o Markos. E não ignore, como Clay, se perceber que alguém ao seu lado demonstre está muito perturbado ou muito infeliz. E se sentir que a vida não vale a pena, se abra com alguém, admita que algo está errado com sua vida. Depois procure ajuda médica. Se trate. Ou ligue para 141, desabafe tudo o que sente e ouça atentamente o que vão lhe falar.

A vida pode não ser fácil ou agradável. Mas é única que temos. E sempre, sempre merece ser vivida. Você não está sozinho.

Ficha Técnica

Título: 13 Reasons Why (Season 1) (Original Netflix)

Ano produção: 2017

Dirigido por: Carl Franklin,  Gregg Araki,  Helen Shaver,  Jessica Yu Kyle, Patrick Alvarez,  Tom McCarthy

Estreia: 31 de Março de 2017 ( Mundial )

Duração total: 716 minutos

Classificação: 16 anos

Gênero: Drama /Mistério

Países de Origem: EUA

Trailer

 

Tainá de Oliveira

Sou Tainá de Oliveira, carioca da gema e tipicamente ariana! Rata de livraria, meu vício em livros começou já no berço. Jornalista, sonho em escrever livros tão bons quanto os que leio e que possam encantar crianças e adormecer adultos!

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  • Laura Helena Amorim

    Esse era um dos meus livros favoritos, mas preciso dizer que como adaptação me decepcionou muito, eles destruiram a Hannah que pra mim era uma personagem fantástica no livro e na série acabou virando só uma menina boba que queria ser o centro das atenções, além disso transformar o Clay no cavaleiro de armadura que deveria ter salvo a “princesa” deixou a história pra mim parecendo um filme de sessão da tarde, mas adorei sua análise de qualquer forma (:

    • Tainá de Oliveira

      Obrigada, Laura! Eu também prefiro o livro (sempre, né rs), mas acho que a série fez bem em dar dimensão aos outros personagens, não apenas se concentrando no núcleo Clay e Hannah! Agora nos resta saber como será essa segunda temporada!

  • Ainda tenho que terminar a série acredita Tainá? mas adorei sua crítica. Assim que terminar te falo o que eu achei.

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